Sempre gostei de música, mesmo antes de saber o que gostava realmente de ouvir.
Lembro que para "pegar no sono" tinha que ter um rádio ligado! ;-D Mas com
uns 14 anos eu queria mesmo era tocar contra-baixo! Não sei por que, mas
mantinha uma simpatia com o baixo. Em casa até havia um violão velho, legado
da minha mãe, que nunca tocou e não seria eu que iria tocá-lo!
Acontece que meu pai queria que eu tocasse teclado e esse foi meu primeiro contato com
a música: fui alguns meses na aula de órgão! Nada contemporâneo, feito meio a facão por
um fabricante local, esse órgão era aquele tradicional de dois teclados em alturas
diferentes, um para cada mão. Havia também um pedal de volume, acionado pelo pé direito,
e uma oitava de pedais de baixo, acionados pelo pé esquerdo! Foi talvez meu primeiro
exercício de coordenação, pois a pedaleira do pé esquerdo era sinistra e, além do pedal
de volume, havia aquelas inúmeras teclas brancas e pretas para cada mão!! Bom, tive dois
teclados, um Giannini e um Casio. E só.
Com 15 anos já ouvia muito rock gaúcho e blues, o que não era tradicional para a idade, mas que viria a ser a base do meu conhecimento musical. Ah, sim... as aulas de teclado foram importantes para pegar aquela base de teoria musical.
Chamar o acaso de mero "acaso" talvez não seja correto. De qualquer forma, foi por acaso que em um belo dia de semana, enquanto eu ainda era um estudante e tinha algumas tardes livres para andar de skate, fui visitar um amigo (Cristiano) com quem andava. Pois justo naquele dia ele estava ocupado: tocando! O Cristiano tocava contra-baixo. Opas... mas eu queria tocar contra-baixo! É... acabou que me pediram para sentar na bateria e ver no que dava... Acho que deu!
Chamar aquela primeira bateria de bateria seria coragem! Era um aglomerado de peças desconexas! O bumbo andava toda vez que se "pedalava" e a construção era realmente tosca! Não lembro de quem era, mas sei que o baterista não havia se coordenado e abandonou-os. Cheguei a investir e comprar uma "tarola", pois não havia caixa e uma "tarola" era o que eu podia comprar na época para contribuir com o monte de peças!
Nessa época compartilhávamos aquela bateria entre umas duas bandas. Além de mim ainda tocava o Giano Carlo, que depois adquiriu o emaranhado de peças. Era hora de eu investir no meu material.
Veja a GOPE!
Tocávamos na garagem da casa do Cristiano (e às vezes, até fora dela!). Tudo ia bem, ao menos para iniciantes, até que recebemos a notícia de que teríamos que parar de tocar, pois estava vindo ao mundo a Isabel. Bom, foi o primeiro tempo que dei. Nessa época fui tocar com outras pessoas e fazer outras coisas. Não lembro ao certo por quanto tempo a gente ficou sem tocar. O fato é que o tempo passou e hoje a Isabel tem até namorado! Mais um pouco vai estar dirigindo!! :D
A volta ocorreria em uma situação um pouco diferente. Fui convidado a fazer "um teste"
na então "Jeannie Secale", pois o Giano estava se transferindo para a Barata Oriental. Acho
que enganei todo mundo! Não havia muito a fazer, mas tinha uma certeza: tinha que ser BLUES!
Estranhamente, naqueles dias, o blues tornou-se algo necessário pela sociedade musical e
fui aceito com minhas idéias! :D
Repertório reformulado, novas músicas próprias, composições de amigos... e o ingresso no PV Sinos
Fest Rock! Estávamos tocando há 3 meses somente quando fomos classificados para a final e,
como premiação, ganhamos uma faixa gravada em um estúdio legal da capital! Com 3 meses somente
acho que estava de bom tamanho!
Não havia mais como manter o estilo antigo e o blues havia tomado conta dos espíritos!!
O Rogério tinha uma voz de negro, mesmo sendo alemão, e acabamos por mudar o nome da banda para
o que acabou sendo a Jeannie Magic Blues!
Nosso primeiro show foi em uma escola de música de Porto Alegre, onde o Rogério fazia aula de
técnica vocal. Foi talvez a noite mais feia do ano, com uma chuva que alagava as ruas!! Havia
pouca gente, mas também, haviam poucas músicas! :D Esse primeiro show foi com minha batera Gope
TOSCA!
... faz você esquecer da primeira! :D A evolução seria parte da natureza humana. Logo viríamos
a tocar na festa da Arquitetura e Geologia e eu não gostaria de tocar com uma bateria TOSCA por
lá... afinal já era aluno da Informática e simplesmente não seria interessante ser lembrado por
ter a bateria mais tosca de toda universidade. Decidi a ter um instrumento melhor e foi justamente
o ano em que apareceram as primeiras baterias da Mapex por aqui! Fiz uma bela aquisição: uma Mapex
Mars Pro, vermelha (puxado para o bordô), laqueada! Bateria padrão, mas muito mais linda que a
surrada Gope de "sambão"!!
Agora sim poderia tocar em público de maneira descente! E a primeira festa da Unisinos aconteceu
logo depois da compra! Ensaiamos uma vez e eu ainda tive que arrumar uns courinhos sobre a pele
tosca que vinha na Mapex!! Só deu pra colocar uma pele melhor na caixa: a sonhada "pinstripe" da
Remo (que não sei por que cargas d´água todo mundo dizia que era hidráulica!).
A evolução viria nos pratos também! Havia comprado meus primeiros pratos descentes, um Zildjian
Medium Ride 20" e um Zildjian K Thin Crash 16". Os pratos foram comprados logo após o show na
Unisinos, pois eu não conseguia mais conviver com o fato de ter que pegar pratos emprestados pra
tocar! De qualquer forma, tenho que lembrar e agradecer ao Mano Norschang, que foi quem quebrou
esse galho!
Veja a MAPEX!
A partir do primeiro ano tocando blues já usava as famosas peles Pinstripe da Remo e pele porosa na caixa... Não preciso dizer que o som mudou bastante! Dois anos depois deixava a Remo no passado e passava a usar as gostosas peles Evans Hydraulic nos tons e bumbo e a grandiosa Evans Genera HD Dry, que resolveu o problema de harmônicos de quem possui uma caixa de metal.
Como gosto de dizer, na Jeannie passamos horas felizes e horas de desespero! Não há nada que dê certo sempre e uma banda é talvez o melhor lugar para aprender a conviver e principalmente trabalhar em uma verdadeira equipe! Tocamos em diversas formações e não cabe a mim citar todas elas, mas devo afirmar que foram os 5 anos mais divertidos e até mesmo hilários que passei na minha vida!
Fizemos realmente muitos shows e posso citar algumas coisas interessantes, além do começo no PVSinos Fest Rock: tocamos no Projeto Quinta-Feira Feliz no Unibar (o bar do Marcolino), fizemos alguns programas ao vivo na Rádio da Unisinos (quando ainda era a rádio blues, antes de se venderem para o lado comercial) graças em grande parte ao Flávio Bernardi (programador musical). Tocamos no Teatro Paschoal Carlos Magno, em Novo Hamburgo, show esse que foi gravado em vídeo e foi base para um projeto de gravação "ao vivo", feita pelo Paulo Gordo!
Tocamos em lugares legais de Porto Alegre, como o Vermelho 23, o Music Hall e também em lugares nem tão legais assim... Tocamos em projetos com outras bandas e tocamos até com meia banda! Tocamos até na festa do ballet, lá no Colégio Pio XII, em um jantar à luz de velas!!
Foi no meio desses "anos dourados" que encomendei meus sonhados pratos, que mantenho até hoje: um par de pratos para chimbau Zildjian K Custom Dark de 14" e o Zildjian K Dark Thin Crash de 14"!! Esse são curiosos, pois não encontrava-os aqui no Brasil de jeito algum. Mas consegui importá-los por intermédio de um sujeito chamado Gary Waddell (Waddell's Drumcenter - PA/USA)
Mas as coisas ficaram complicadas... estava trabalhando bastante no final do ano de 1999 e tinha o trabalho de conclusão da faculdade de Informática (meu esquisito bacharelado em Análise de Sistemas). O problema foi tempo e tive que sacrificar o que me dava talvez mais prazer, mas menos dinheiro. Foi o momento em que resolvi "juntar as escovas" e precisava de dinheiro e tempo! A contra gosto, mas em uma decisão correta, escolhi por deixar a banda. Sabia que não poderia cumprir com todos os compromissos que o pessoal estava planejando para aqueles anos e achei por bem não prejudicar ninguém.
Em uma decisão sem revés, mantive o compromisso de permanecer enquanto não houvesse alguém para me substituir ou em qualquer situação especial. Acho que esse compromisso ficou muito claro e de fato veio a ser importante algum tempo depois. Felizmente havia um sujeito interessado em pegar meu lugar, o Paulo Barros (Padilha). Meu último show foi no dia 12 de janeiro, no POA Pub. Dia 15 saí de férias.
A bateria ficaria um tempo ainda na garagem, sendo usada pelo Padilha e pelo Giano. Estranho foi o fato de que, mesmo sem perceber, a gente havia trocado favores e compartilhado experiências e instrumentos durante esses anos... Depois resolvi vender a bateria, pois a Mapex, mesmo que corajosa, já precisava de manuntenção.
A palavra de um homem deve prevalescer. É o que acredito. E foi assim.
No dia que saí da banda me comprometi em estar presente sempre que houvesse necessidade e ela se mostrou em vários momentos, principalmente quando o Padilha resolveu realizar uma cirurgia e a banda estava comprometida com alguns shows grandes, inclusive no Centro de Cultura de Sapiranga. Nesse momento fui chamado e prontamente atendi, conforme a palavra dada. Não me peça para cumprir com a minha parte, apenas faça a sua!
Foi assim em outros momentos que o Padilha não poderia fazer-se presente e impressionantemente nos tornamos por assim dizer uma das únicas bandas não-profissionais, em que havia praticamente dois bateristas prontos a atender, sem atrito!
Como eu dizia na época, parafraseando Charlie Watts: "Eu apenas toco para o Helinho e para o Cristiano!" e posteriormente, respondendo a um conhecido nosso que disse que "por eu ter uma mulher eu não era um bluesman": "Eu sou um profissional."! HEHE Rimos muito dessas coisas...
Não toquei bateria, exceto em raras exceções, durante o período de 2000 a 2005. Foi um período sabático musical, no qual me dediquei a estudar um pouco de trompete, a exemplo de uma frase que ouvi do grande Hermeto Paschoal: "Todo músico percussionista deveria tocar um dia um instrumento de melodia ou harmonia e vice-versa. Só assim se pode conhecer a música e as diversas dificuldades envolvidas em tocar". Foi o que fiz, não tão aplicadamente quanto gostaria, mas tentei.
Foi um tempo de conhecer o Jazz e os grandes amigos trompetistas, Luciano e Ramiro. Me ensinaram muita coisa, mas principalmente que devemos ser sempre nós mesmos, autênticos!
Depois de algum tempo cheguei até a tocar um pouco de contra-baixo, como era meu desejo no princípio, para os amigos da Holly Beer Lovers, apenas para manter os espíritos dos fubangos vivos! Para minha felicidade o Flash resolveu voltar e investir na sua carreira de músico, voltando a tocar contra-baixo na banda. Bom, até porque eu mais pulava que tocava! Mas me diverti bastante!! :D
De fato, esse tempo que passei distante da bateria serviu apenas para decidir o que eu realmente gostaria de fazer: tocar bateria! Passei esses anos todos pensando em como deveria ser, como fazer para que isso pudesse tornar-se realidade, com que tipo de instrumento eu gostaria de tocar.
Depois de 4 anos pensando, teorizando, reunindo informações técnicas e construindo conceitos finalmente cheguei à formula correta. A prática surgiu depois de uma série de cálculos que provaram que eu poderia fazer a coisa do jeito que havia planejado.
A certeza veio após minhas férias, quando visitamos o Museu Nacional do Mar, na Ilha de São Francisco do Sul / SC. Lá, discretamente repousando, estava a minha resposta. Um dia um sujeito resolveu reunir informações e montou um plano e um barco. Seu destino: cruzar o Atlântico Sul a remo! Loucura para alguns, mas factível para quem passou algum tempo estundando e planejando!
A volta e a certeza....
... que não mereça o máximo de cautela e atenção! Todos os detalhes estão quase do jeito que eu planejei, exceto por uma peça que será importada do Japão e infelzimente só chega em abril do ano de 2006! E para isso aquele sujeito me ensinou que há momentos em que simplesmente devemos ter PACIÊNCIA!!
Obrigado Amyr!
E assim estamos chegando ao final do ano de 2005, exatamente 5 anos parado, depois de ter tocado os 5 anos anteriores, mas agora sim, pronto para abrir as velas!
E finalmente a obra prima: ODERY!
Mas o que nem mesmo eu pude prever aconteceu: depois de muita grana e, principalmente tempo, descobri que meu projeto não era um barco à vela, outrosim, uma canoa furada! Infelizmente as coisas não saíram de acordo com meu projeto e naufraguei com grana e tempo. Acreditei em promessas e agora tornei-me meramente cético.
Destino ou não, nessa época veio ao mundo o Alonzo Vicenzo, meu filho, que talvez possa herdar meus instrumentos musicais. Talvez ele goste de bateria...
Também me desiludi incrivelmente com a classe dos músicos ditos profissionais e resolvi sair da Ordem dos Músicos do Brasil. Essa é outra bronca...