A Primeira a gente nunca esquece!

A primeira bateria foi um investimento do meu pai, ou um "paitrocínio". Primeiro, porque eu só ganhava mesada. Segundo, por que a mesada era pouca e nem juntando daria pra pagar!

A Gope é notoriamente conhecida pelos instrumentos percussivos, principalmente para o samba. Preste atenção aos desfiles das escolas de samba do Rio e certamente verá um instrumento da Gope.

Quanto à baterias, atualmente não conheço a linha da Gope, mas naqueles tempos era meramente sofrível! As ferragens eram sinistras. Não havia pele de respostas. Os pés de bumbo, se pode ser chamar assim, eram pontas afiadas de ferro pintadas de cinza!

O Kit

A batera era um Kit padrão, 5 peças:
- bumbo 22"
- surdo 16"
- tom 12"
- tom 13"
- caixa 14"
- máquina de chimbau
- pedal de bumbo
- estante de caixa
- estante de prato
- banco
- par de pratos para chimbau, de latão
- prato de ataque, de latão

O material dos tambores era o alumínio e portanto não havia um acabamento. Canoas e demais partes da ferragem eram meramente TOSCAS!! As estantes e máquina eram meramente TOSCAS e o revestimento interno do banco era, pásmem, bolos de estoupa (sim, aquela de polir carro), o que ficava duro e não deixava você confortável.

Detalhes

Como você pode ver, não lembro de detalhes das peças, como a medida da profundidade. Mas existem alguns detalhes interessantes, como o pedal do bumbo: lembro bem pois era uma "dor de cabeça"!!

Pedal do bumbo: não lembro ao certo, mas acho que a sapata era de alumínio e o sistema de transmissão passava longe de ser uma corrente ou cinta: era um pedaço de ferro, mais parecido com o sistema do legendário SpeedKing (Ludwig). Mas por favor, passava LONGE de ser uma réplica de um SpeedKing!! Não lembro do pirulito, mas o batedor definitivamente era uma bola TOSCA de madeira, um pouco mal torneada e nem um pouco lixada! Não preciso dizer que logo vi que a pele não aguentaria!

Máquina de chimbau: era com pés simples, que não dobravam direito. Não dava para remover a vareta central, o que aliado aos pés, trazia uma complicação na hora de transportar. A presilha era "algo": de alguma forma que não entendia ela parecia funcionar, mas a tarracha era praticamente um parafuso sem ponta entortado em um ângulo de 90 graus! Céus!

Peles: bah! Originais da Gope, as verdadeiras peles de plãstico para sambão!! :D Tinham um som tão ruim, aliado ao alumínio dos cascos, que a única solução para ter um som aceitável foi colocar couros de 2mm sobre o ponto doce da pele, presos com fita isolante! Na pele do bumbo, para não sofrer a ação do temível batedor de madeira, foi aplicada a incrível solução legal da época: um chumação de algodão preso com um gigante "Emplastro Sabiá" (atualmente pode ser utilizado o Salompas!). O Emplastro Sabiá era um adesivo pra resolver problemas de reumatismo ou coisas assim e podia ser facilmente comprado nas farmácias em qualquer tamanho. Era feito a partir de um tipo de tecido altamente resistente e possuia um lado auto-adesivo, tão forte quanto a temível fita "teipe" (a fita cinza pra consertar tênis e prancha de surf).

Cascos: não havia pele de resposta, portanto a batera ficava com aquele aspecto "vintage"... um ok, ficava era feio mesmo! As canoas eram estampadas em alumínio e os parafusos eram uma combinação de cabeça sextavada e uma contra-porta quadrada, que ficava escondida dentro da canoa. Os aros eram chapas de ferro dobradas e soldadas, sem chamfros, bordas ou coisas do gênero e eram fixados aos parafusos através de uma presilha, nada parecido com o sistema de aros atuais.

Caixa: era praticamente uma caixa de fanfarra, feita em alumínio, com uma esteira de 10 fios!! A esteira era presa a um sistema de "automático" (!) muito simples, praticamente uma alavanca que não travava direito. Bom, nem precisava... A afinação consistia em um único parafusão que prendia os dois aros às peles e portanto, quando se apertava o parafuso, ambas as peles (batedeira e resposta) seriam apertadas!

Tom holder: o suporte para os tons era praticamente um canote em forma de "T", onde se encaixava o arcáico sistema de tarrachas dos tons. Ok, eu falei "T", ou seja, não havia nenhum tipo de regulagem, exceto a inclinação dos tambores e a altura em relação ao bumbo!

A Parte Legal

Como os cascos eram de alumínio, dificilmente riscavam e não havia peles de resposta eu simplemente colocava quase que uma peça dentro da outra e tudo dentro do bumbo e transportava a batera quase em uma vez!!! Bag´s pra que? Não precisava!

Também não precisava de tapete, pois os pés do bumbo e demais partes de alumínio se fixavam às imperfeições da superfície do piso e não havia porquê levar um tapete! Mas tinha que tomar cuidado com os pés do bumbo: de fato eram verdadeiramente pontas bem afiadas, que facilmente penetravam qualquer coisa: o chão, se fosse madeira ou "parquê", o estofamento do carro (e eles adoravam acertar essas partes!), ou as telas dos aplificadores que compartilhavam espaço no porta-malas do carro!

Era a prova d´água, ou seja, podia descarregar na chuva que era só passar um paninho e tava tudo pronto!! E também, talvez o mais legal, era facílimo de limpar: bastava levá-la para a rua e passar a mangueira, esfregar com uma espuma e um detergente qualquer (desses de lavar carros), deixar secar por um instante ao sol e pronto! Tudo brilhando... dentro do possível!

Trocando as Peças

Pele da caixa: foi a primeira a voar! Não havia condições e juntei todas as mesasdas que consegui para comprar a famosa "Pinstripe" (remo), que era a única pele diferente que se conseguia aqui na cidade. Só havia uma loja e somente existia a Pinstripe de pele boa!

Prato de ataque: levantei uma grana e comprei um prato que usava num misto de ataque e condução, um Camber Crash/Ride 18", alemão, feito de uma liga de alumínio. Pratinho barato, mas que durou bastante!

Estante para prato: não dava pra usar um prato mais ou menos com uma estante tosca. Juntei mais uma fortuna e investi no sonho do baterista: uma estante girafa Raul!! AHA! Agora a primeira peça cromada e decente de toda a bateria!!!

Pratos do chimbau: vieram no encalço das mudanças. Também eram pratos Camber, de 14" em uma época que o melhor que a indústria nacional produzia eram os "famosos" e bons pratos "Ziltannan" (qualquer semelhança é mera coicidência!).

Pedal de bumbo: foi comprado quando passei a tocar na Jeannie Magic Blues, pois não havia como tocar de forma melhor com aquele pedalão de caloi!! Não tinha marca, mas a sapata era de ferro, o sistema de tração era por uma cinta de tecido (UAU!) e o batedor finalmente era um delicioso bolão clássico de FELTRO!! Finalmente, o som do bumbo!!

Imagens

Gope 1

Gope 2


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